Por muito tempo se discutiu as formas de enfrentar as consequências desse maldito vírus, que tantas vidas já levou e, agora, existe uma sensação de que a consciência sobre a importância de cada vida está sendo colocada de lado. Aparentemente parece existir uma aceitação geral de que, naturalmente, deverão ocorrer muitos óbitos e que isso espelha uma realidade inevitável. Sinceramente, penso e acredito que, o mesmo valor que cada vida tinha antes da Pandemia do COVID-19, permanece inalterável.
Quando acompanhamos o noticiário nacional, fico abismado com o acompanhamento da média móvel e a naturalidade como é aceito os óbitos. A forma que os gráficos são apresentados (em diversas cores e muito bonitos, por sinal), levam o grande público a aceitar o que enxergam, como sendo normal, melhorando ou piorando, a quantidade de óbitos, conforme a interpretação de cada um. Não, essa realidade não pode ser considerada como normal, pois essa média móvel significa perdas de vidas importantes e insubstituíveis. Essa média móvel continua muito alta, mesmo que estável e melhorando lentamente. São muitas vidas perdidas diariamente, provocando muito sofrimento, muita dor e muitas dificuldades às famílias. São perdas de pais, mães, maridos, esposas, filhos, parentes, amigos e desconhecidos, todos muito importantes, ontem, hoje e amanhã.
Apesar da minha fé e de minha esperança inabalável de que logo poderemos voltar à nossa vida normal, tenho "balançado" muito. Confio plenamente na qualidade de nossos médicos e em todos os envolvidos na Área Médica nessa luta de salvar vidas, assim como, nos cientistas que buscam, de forma incessante, a medicação certa e a vacina contra esse vírus. Fico muitas vezes imaginando como os outros estão se sentindo durante esse período de isolamento social, repleto de incertezas, de uma solidão provocada pela sensação de abandono, de inúmeras privações e de perdas irreparáveis.
Quando vejo essas notícias apresentadas de forma estatística, com as mais diversas interpretações, onde as perdas de vidas muitas vezes são entendidas como um simples dado, minha tristeza é muito grande. 1% pode não significar quase nada para muitos, mas mergulhando nesse percentual, procurando enxergar o que ele representa, são o % de vidas perdidas (quantas em cada 100 pessoas contaminadas). Na verdade, representa muito e é preocupante. Basta procurar entender que 1% de 100 pessoas contaminadas, se for um de nós, um ente querido de nossa família, um parente próximo ou um amigo, significa uma perda de 100%.
Não podemos aceitar como sendo uma realidade distinta e natural que essa média de 3,1 % dos brasileiros venha a óbito a cada dia ou seja que mais de três brasileiros morrem por dia entre cada 100 de contaminados pelo COVID-19, de mais de 1.000 a mais de 800 pessoas/dia, apresentando uma redução lenta, muito aquém do que gostaríamos. A nossa realidade traumática é que, hoje, 07/09/20, o Brasil registra 4.137.521 casos acumulados de COVID-19 e 126.650 (3,06%) mortes com confirmação ou suspeita da doença (mais de 800 pessoas/dia). Do total de casos confirmados, 3.317.227 (80,2%) pacientes se recuperaram e 693.644 (16,7%) estão em acompanhamento. Essa é a realidade triste, nua e crua.
O que mais estranho, é que exatamente aqueles que mais falavam em defender e valorizar uma vida, hoje, “fecham os olhos” para a realidade e alicerçam suas opiniões em comportamento de tendências. Observando o necessário relaxamento do isolamento social, cauteloso, gradual e responsável, com um aumento considerável da circulação de pessoas e da possibilidade até hoje previsível de incremento das contaminações, somado a proximidade da volta das crianças às Escolas (com maior exposição das crianças devido ao convívio com colegas, professores e ajudantes, no transporte, nos deslocamentos e em tantas outras situações) e o fechamento/desmonte dos hospitais de campanha, passo a não entender mais nada. Acredito que estão “fechando os olhos” para os integrantes do grupo de risco, da segurança das crianças e aceitando a perda de vidas, como sendo uma consequência natural e inevitável.
Um ano escolar perdido é uma grande perda, entretanto recuperável com um bom planejamento e com uma maior dedicação e empenho das autoridades, professores e pais. Um só perda de vida, desculpem, é irrecuperável e que só se justifica pela irresponsabilidade de alguns e pela incoerência do convívio permitido nos shoppings, praias, transportes coletivos, restaurantes, bares e outros lugares públicos abertos, sem uma vacina para proteção da população e sem a devida vacinação em massa..
Para encerrar, acompanhando essas notícias ruins que surgem a cada consulta nas redes sociais, minha preocupação aumenta a cada dia, pois percebemos constantes “partidas inesperadas” de gente querida e amiga, assim como de tantos outros brasileiros. Hoje, todos já possuem o conhecimento suficiente sobre a letalidade desse vírus e sua forma intensa de proliferação entre a população, entretanto já surgem notícias e dúvidas sobre o sucesso das vacinas que estão em testes e a possibilidade de novas ondas de contaminações e até de repetição em que já foi afetado e curado.
Com tudo isso que está acontecendo, com toda essa incerteza e preocupação sobre o futuro e observando as pessoas irresponsavelmente se expondo desnecessariamente ao vírus, fico ainda mais triste quando imagino o sofrimento e a dor das famílias que ainda serão envolvidas e, ao mesmo tempo, agradeço por estar e continuar vivo. A cada dia procuro agradecer, renovar minha fé e manter a esperança de que teremos a oportunidade de ainda podermos desfrutar um futuro melhor, junto das pessoas que amamos e de todos aqueles que hoje nos fazem tanta falta.