Quando estamos vivendo momentos muito difíceis, sempre ouvimos amigos tentando
nos consolar dizendo que esse é o peso da cruz que devemos e temos força para
carregar. Verdade, mas difícil de aceitar, pois muitas vezes o peso nos
fragiliza e o esforço para carregá-la é demasiadamente alto e os
questionamentos invadem nossa mente. Questionamentos sobre o passado, o
presente e o futuro, principalmente sobre a origem do peso da cruz. A dúvida é
acreditar ou não se seu peso não poderia ser menor. Se o peso só correspondente
ao que devemos carregar ou se não é sobrecarregado com a omissão de outros na
solução das dificuldades.
Muitas vezes resignados com a situação, mesmo sabendo que esse
comportamento significa a manutenção do “status quo”, se conformam projetando
sobre a realidade da grande maioria do povo trabalhador que recebe o salário
mínimo. Ficamos imaginando como pode um brasileiro viver com um salário tão
baixo tendo como sua responsabilidade todo o peso dos custos de moradia,
alimentação, educação e saúde. Casado e se tiver família, filhos, pior ainda. Imaginem
em casos de doenças, internações e compra de remédios. Alguns irão afirmar que a
educação e a saúde pública estão disponíveis e que são de boa qualidade, mas esses
mesmos não a utilizam e as razões todos conhecem. Essa realidade aceita e defendida
por esses hipócritas, não passa de uma farsa e uma violência sem tamanho, pois
ilude uma grande maioria com a “venda” da realização do sonho de um futuro
melhor.
Triste realidade de um País onde os mais velhos, os que já cumpriram com
suas obrigações trabalhistas e previdenciárias uma vida toda, não tem seus
direitos respeitados e são obrigados a continuar trabalhando até morrer, quando
deveriam aproveitar o merecido descanso conquistado. Nossos velhos acordam cada
vez mais assustados com a incerteza do futuro e com as privações que hão de
vir. O valor de suas aposentadorias é reduzido ano após ano e suas necessidades
aumentam dia após dia. Não podemos esquecer que muitas vezes fragilizados por
suas idades são impedidos de fazer o que precisaria ser feito e a única saída é
se privar cada vez mais.
Triste realidade de um País que não respeita suas crianças, não lhes
oferecendo um futuro melhor e menos desigual. Crianças que crescerão vendo a
propagação e manutenção do corporativismo e de privilégios de alguns escolhidos
e a total exclusão de oportunidades e direitos de uma grande maioria. Onde está
o respeito mútuo, a igualdade de direitos e o bem comum, quando vemos poucos
com acesso a tudo que de melhor a vida oferece e outros com direito a nada,
somente a necessidade de continuar lutando, nas piores condições possíveis,
para conseguir sobreviver.
Está mais do que na hora de parar, analisar e olhar de forma crítica e
mais humana a grande desigualdade de entendimento e tratamento das diferenças
que existem em todas as áreas em nosso País. Não consigo entender que alguns
tenham altos salários, protegidos por altas correções, todos os privilégios
possíveis e que são totalmente inacessíveis aos demais, possam ter uma cruz
mais pesada ou sintam mais necessidades que aqueles que recebem o salário
mínimo ou um pouco mais e que lutam sozinhos por suas sobrevivências. O que
mais me deixa espantado é alguns que ainda encontram coragem para criticar e
negar aumentos justos do Salário Mínimo, até ridículos quando comparados aos
seus.
Esse momento é a hora certa para passar a limpo tudo se quisermos viver
em um país mais justo. Essa é a hora de analisar com critérios e profundidade se
os recursos hoje disponibilizados, materiais e pessoais, são compatíveis com as
necessidades de todas as atividades da vida pública, em todas as áreas. Analisar
se as origens e valores das contribuições são iguais de todos os cidadãos
brasileiros da vida pública e privada, assim como os benefícios e as
recompensas são as mesmas. É hora de acabar com privilégios, eliminar as discriminações
e tratar com igualdade todos os trabalhadores brasileiros, cidadãos iguais
perante a Constituição.
Será que estamos voltando para o tempo da aceitação das diferenças de
classes entre imperadores, reis, fidalgos, aristocratas e a plebe? Esse modelo de
sociedade perpetua os “senhores” e discrimina a grande maioria da população. Acredito
que estamos vivendo décadas de hipocrisia, escárnio e arrogância, onde poucos
se consideram superiores e com direito a tudo e o resto, é o resto, entregue à sua
própria sorte. É o tempo das conhecidas expressões, em todas as áreas, “eu não
sabia”, “a culpa não é minha, herdei isso”, “há, isso acontece”, “isso não pode
acontecer”, “que surpresa, isso é horrível e inaceitável”, “vou corrigir isso”,
como se todo mundo não fosse dotado de um mínimo de inteligência e levasse em
consideração o que dizem.
Acredito que o momento é muito crítico, pois o respeito às Instituições
e aos três Poderes no Brasil deveriam ser resguardados por todos, inclusive
entre eles mesmos, o que não se está constando hoje, exatamente de onde poderiam
surgir todas as soluções para os problemas atuais, evitando esse imobilismo e a
criação de condições para a existência de regimes de exceção de direita ou de
esquerda. Essa prática do respeito às Instituições e o respeito mútuo é
fundamental em uma sociedade que pretende viver em harmonia.
O peso dessa cruz que carregamos hoje pode ser bastante reduzido, basta
haver mais honestidade, viver mais intensamente valores, agir de forma correta,
ética e justa, pensando mais no bem estar de todos, no bem comum, no respeito
mútuo, nos direitos e deveres iguais e, principalmente, não virando às costas e
negando a oportunidade de uma grande maioria alcançar a felicidade.
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