segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O PESO DA CRUZ QUE CARREGAMOS


 

 
Quando estamos vivendo momentos muito difíceis, sempre ouvimos amigos tentando nos consolar dizendo que esse é o peso da cruz que devemos e temos força para carregar. Verdade, mas difícil de aceitar, pois muitas vezes o peso nos fragiliza e o esforço para carregá-la é demasiadamente alto e os questionamentos invadem nossa mente. Questionamentos sobre o passado, o presente e o futuro, principalmente sobre a origem do peso da cruz. A dúvida é acreditar ou não se seu peso não poderia ser menor. Se o peso só correspondente ao que devemos carregar ou se não é sobrecarregado com a omissão de outros na solução das dificuldades.
 
Muitas vezes resignados com a situação, mesmo sabendo que esse comportamento significa a manutenção do “status quo”, se conformam projetando sobre a realidade da grande maioria do povo trabalhador que recebe o salário mínimo. Ficamos imaginando como pode um brasileiro viver com um salário tão baixo tendo como sua responsabilidade todo o peso dos custos de moradia, alimentação, educação e saúde. Casado e se tiver família, filhos, pior ainda. Imaginem em casos de doenças, internações e compra de remédios. Alguns irão afirmar que a educação e a saúde pública estão disponíveis e que são de boa qualidade, mas esses mesmos não a utilizam e as razões todos conhecem. Essa realidade aceita e defendida por esses hipócritas, não passa de uma farsa e uma violência sem tamanho, pois ilude uma grande maioria com a “venda” da realização do sonho de um futuro melhor.
 
Triste realidade de um País onde os mais velhos, os que já cumpriram com suas obrigações trabalhistas e previdenciárias uma vida toda, não tem seus direitos respeitados e são obrigados a continuar trabalhando até morrer, quando deveriam aproveitar o merecido descanso conquistado. Nossos velhos acordam cada vez mais assustados com a incerteza do futuro e com as privações que hão de vir. O valor de suas aposentadorias é reduzido ano após ano e suas necessidades aumentam dia após dia. Não podemos esquecer que muitas vezes fragilizados por suas idades são impedidos de fazer o que precisaria ser feito e a única saída é se privar cada vez mais.
 
Triste realidade de um País que não respeita suas crianças, não lhes oferecendo um futuro melhor e menos desigual. Crianças que crescerão vendo a propagação e manutenção do corporativismo e de privilégios de alguns escolhidos e a total exclusão de oportunidades e direitos de uma grande maioria. Onde está o respeito mútuo, a igualdade de direitos e o bem comum, quando vemos poucos com acesso a tudo que de melhor a vida oferece e outros com direito a nada, somente a necessidade de continuar lutando, nas piores condições possíveis, para conseguir sobreviver.
 
Está mais do que na hora de parar, analisar e olhar de forma crítica e mais humana a grande desigualdade de entendimento e tratamento das diferenças que existem em todas as áreas em nosso País. Não consigo entender que alguns tenham altos salários, protegidos por altas correções, todos os privilégios possíveis e que são totalmente inacessíveis aos demais, possam ter uma cruz mais pesada ou sintam mais necessidades que aqueles que recebem o salário mínimo ou um pouco mais e que lutam sozinhos por suas sobrevivências. O que mais me deixa espantado é alguns que ainda encontram coragem para criticar e negar aumentos justos do Salário Mínimo, até ridículos quando comparados aos seus.
 
Esse momento é a hora certa para passar a limpo tudo se quisermos viver em um país mais justo. Essa é a hora de analisar com critérios e profundidade se os recursos hoje disponibilizados, materiais e pessoais, são compatíveis com as necessidades de todas as atividades da vida pública, em todas as áreas. Analisar se as origens e valores das contribuições são iguais de todos os cidadãos brasileiros da vida pública e privada, assim como os benefícios e as recompensas são as mesmas. É hora de acabar com privilégios, eliminar as discriminações e tratar com igualdade todos os trabalhadores brasileiros, cidadãos iguais perante a Constituição. 
 
Será que estamos voltando para o tempo da aceitação das diferenças de classes entre imperadores, reis, fidalgos, aristocratas e a plebe? Esse modelo de sociedade perpetua os “senhores” e discrimina a grande maioria da população. Acredito que estamos vivendo décadas de hipocrisia, escárnio e arrogância, onde poucos se consideram superiores e com direito a tudo e o resto, é o resto, entregue à sua própria sorte. É o tempo das conhecidas expressões, em todas as áreas, “eu não sabia”, “a culpa não é minha, herdei isso”, “há, isso acontece”, “isso não pode acontecer”, “que surpresa, isso é horrível e inaceitável”, “vou corrigir isso”, como se todo mundo não fosse dotado de um mínimo de inteligência e levasse em consideração o que dizem.
 
Acredito que o momento é muito crítico, pois o respeito às Instituições e aos três Poderes no Brasil deveriam ser resguardados por todos, inclusive entre eles mesmos, o que não se está constando hoje, exatamente de onde poderiam surgir todas as soluções para os problemas atuais, evitando esse imobilismo e a criação de condições para a existência de regimes de exceção de direita ou de esquerda. Essa prática do respeito às Instituições e o respeito mútuo é fundamental em uma sociedade que pretende viver em harmonia.
 
O peso dessa cruz que carregamos hoje pode ser bastante reduzido, basta haver mais honestidade, viver mais intensamente valores, agir de forma correta, ética e justa, pensando mais no bem estar de todos, no bem comum, no respeito mútuo, nos direitos e deveres iguais e, principalmente, não virando às costas e negando a oportunidade de uma grande maioria alcançar a felicidade.
 

 

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