terça-feira, 1 de março de 2011

Mãe


Tem determinados assuntos que a gente procura mil desculpas para não escrever, com receio de parecer ridículo ao expressar e externar verdadeiros sentimentos, de ser piegas, de dividir emoções, mas, sem ter receio de ousar, vou fazer uma sincera homenagem à minha mãe, pois jamais vou querer me arrepender de alguma coisa que tenha vontade de ter feito e não ter tentado. Erros e acertos fazem parte de nossas vidas...

Passados já 64 anos (como passaram rápidos) de minha jornada, cheia de grandes experiências, trocas, erros, acertos, momentos inesquecíveis e beirando os 65 anos (Junho está próximo), até hoje não consegui colocar no papel ou em palavras, tudo aquilo que minha mãe significa para mim.

O que sei é que aquele lírio branco, lindo, nasceu no Bairro Arroio da Manteiga, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Filha de família tradicional e de posses, tanto materiais, como espirituais. De pai, de inventor de brinquedos, premiado nacionalmente, a empresário de sucesso e de grande poder empreendedor (quando ainda não se usava essa palavra). De mãe, de primorosa educação e excelente educadora. Filha e irmã exemplar. Sempre primou pela sua boa educação e crescente cultura. Sempre foi aluna participativa e maravilhosa, que as freiras o digam. Só poderia ter sido descoberta e conquistada por um verdadeiro homem e esportista, do Alto da Bronze (Praça General Osório), em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, com quem casou, lutou bravamente e cultivou cinco filhos. Penso que seria um livro de grande sucesso se toda a história dessa guerra que teve grandes batalhas travadas com a coragem do gaúcho, em São Leopoldo, Porto Alegre, Flores da Cunha e Bento Gonçalves, pudesse ser contada e escrita. Sempre foi um ponto de referências elogiosas e de destaque entre colegas, alunos e faxineiras nas escolas e nos órgãos onde contribuiu com seus serviços, principalmente na formação de excelentes professores para a pré-escola. O reconhecido mérito de ser grande no enfrentamento das dificuldades e pequena quando da divisão do sucesso. Para encerrar, não saberia definir, até esse momento, se ela foi melhor como mãe, filha, irmã, neta, esposa, companheira, avó, professora, escritora, orientadora educacional ou amiga, pois sempre se destacou e brilhou intensamente.

Depois dessa pequena apresentação, passo a tratar somente do que penso dela.

O que mais admiro nela são sua inteligência, sua cultura, sua crença e vivência firme em valores importantes e sua imensa sabedoria, principalmente em ouvir, ponderar, ensinar, sem conflitar, distribuindo gratuitamente, como uma verdadeira mãe o faz, seu conhecimento, seu carinho e sua experiência maravilhosa. Seu coração mais parece uma imensa cachoeira derramando compreensão, carinho e amor a todos, sem exceção. Ela é linda por fora e por dentro.

Uma vez, estava disperso em meus pensamentos e mesmo distraído percebi uma plumagem de um pássaro lentamente caindo e desenhando o espaço até atingir o chão. De imediato veio à minha mente a consciência da sua sensibilidade, delicadeza e leveza de ser.

Minha mãe é a minha fonte da força da vontade de viver intensamente a cada dia que nasce, de continuar lutando para oferecer às pessoas que amo e que cercam com o que de melhor tenho e posso, sem medo, com coragem, com perseverança e sempre pronto para ganhar e perder. Em outras palavras, ser grande em determinados momentos e entender que posso não ser nada em outros, mas sempre seguindo célere ao encontro de meus sonhos, não temendo dificuldades, por maiores que elas sejam. Apesar de que em determinados momentos algumas lágrimas escorrem dos meus olhos, pois a saudade vem forte, é muita e a distância física é cruel, não são suficientes para esfriar o calor da sua presença em meu pensamento.

Ela é o sol que ilumina o meu caminho e me esquenta, mas também é a chuva que me refresca e que rega o meu corpo e os meus sonhos. Ela representa o colo amigo que me espera, o aconchego, o carinho das pessoas que me querem bem e a sinalização para o meu porto seguro.

No silêncio e na escuridão da noite é pensando nela que converso com meu travesseiro, pondero opiniões, reconsidero meus equívocos, meus erros, confesso meus pecados, refaço meus planos e alimento os meus sonhos.

À noite, quando olho o céu, vejo um mar de estrelas e percebo que nenhuma delas brilha mais do que seus olhos e, ao descobrir a Lua, identifico claramente a sua luz própria e a sua imagem, elegante e altiva.   

Quando as dificuldades aparecem ou quando o vento frio corta o meu corpo, quando escuto trovões ou vejo os raios, penso que o Deus que acredito ou a divindade da crença de outros, aquela força superior que nos ilumina, está me indagando se estou dando o melhor de mim para ela e sempre concluo que gostaria de ser um filho muito melhor. Por mais que me esforce, sempre fica o sentimento de ainda ter sido pouco, para ter tido a graça de ser seu filho, de poder compartilhar de seu carinho e de seu amor por todos esses anos.

Um comentário:

  1. Nico, mano querido!
    Como lindamente iniciaste tua homenagem, não existem palavras para expressar o significado que nossa mãe tem para nós. E como contribuição, acrescentaria seu imenso coração onde cada um que dela se aproxima, tem um singular lugar reservado.
    Sempre ouvia dizer que “coração de mãe é grande”. E concordo! Mas hoje compreendo que grandeza no coração da mãe significa sensibilidade, generosidade, profundidade e sinceridade em suas palavras, respeitando os sentimentos e o momento de vida de cada um/a.
    Nesse coração também existe muito muito muito muito amor capaz de escutar os desafios diários e de compreender e respeitar as diferentes concepções que cada geração assume como filosofia de vida, e, muitas vezes, essas concepções são contrárias as suas. Aí sim fica difícil nossa compreensão quando, mesmo aos 91 anos de idade, nossa mãe se adapta tranquilamente as inovações do mundo, aos diálogos geracionais, aos valores de época e, principalmente, à vida bem vivida junto às pessoas, sejam elas de sua vida familiar, profissional ou, até mesmo, do bom dia ocasional quando molha as flores do jardim. E isso, para mim, chama-se sabedoria! Sabedoria de quem sabe aprender infinitamente com que cada um/a pode contribuir!
    Acredito, mano querido, que seus lindos azuis indicam a serenidade com que nossa mãe vislumbra, nas pessoas, sempre suas potencialidades ao invés de fragilidades, criando 1001 formas de incentivá-las ao invés de compactuar com possíveis desistências. E sua cumplicidade, ao invés da rejeição, serve como alicerce para a superação de quem, por ventura, está com alguma dificuldade. E, mais lindo, ainda, é que não a escuto queixar-se de sua vida. Talvez estejam aí algumas das muitas aprendizagens que fizemos com ela, a partir de seu exemplo de vida: coragem, honestidade, persistência, amorosidade.....
    Como tu, mano querido, amo, incondicionalmente, nossa mãe! E agradeço a Deus o privilégio de ser uma de suas filhas.

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