Triste
e inconformado com o prolongamento interminável do sofrimento provocado por
guerras cruéis, não consigo ficar calado e isso me levou à decisão de me
colocar no lugar dessas pessoas, gente como nós, que vivem nessa situação de exposição
à loucura e à miséria humana e tentar escrever como devem se sentir. As
considerações que faço servem para serem replicadas e multiplicadas por todos,
adultos e crianças, envolvidos em todas as zonas de conflito.
Noite
e dia essa gente sofrida deve estar vivendo com medo por não saber se dentro de
alguns minutos ou no futuro estará viva ou morta. Viver para eles deve significar
a incerteza do momento seguinte. Não sabe se estarão juntos com seus pais, seus
irmãos, seus filhos ou se alguns ou todos ficarão vivos ou morrerão. O
prolongamento ou não de suas vidas está nas mãos de outros, que nem ao menos
conhecem e que não possuem a mínima ideia porque trazem tanta dor e sofrimento
para eles, pois gostariam apenas de somente viver em paz
Luz,
só a do dia, a do sol e assim mesmo, se as bombas, os tiros e os incêndios
permitirem. Para eles, ficar ou sair de casa, a incerteza sobre sua segurança é
a mesma. Se ficarem, suas casas, que deveriam ser seus abrigos seguros, poderão
ser atingidas por bombas e serem mutilados ou morrerem, se saírem, também, ou
ainda podem ser feridas ou mortas por balas disparadas em sua direção.
Essas
pessoas devem sofrer muito, pois se ao menos tivessem os remédios necessários para
minimizar as dores, tratar seus ferimentos ou atuarem sobre doenças existente
ou surgida com essa guerra cruel, mas eles inexistem e só lhes resta sofrer,
sozinhos, abandonados, sem ajuda e sem a complacência de ninguém. A dor e o
sentimento de terem sido esquecidos são sua única companhia, pois a sua
esperança em um futuro melhor vai desaparecendo dia após dia.
Fico
imaginando como gostariam de beber uma água limpa ou poder tomar um banho. Como
gostariam de tirar a sujeira de seus corpos e de seus cabelos. Escovar seus
dentes deve ser impossível, não devem lembrar quando foi a última vez. Devem
ficar imaginando, como podem estar sentindo sede, não ter água para beber e ter
tanta água no mundo. O sentimento de total abandono deve invadir seus
pensamentos, entre um bombardeio e outro.
Com
os corpos magros evidenciando a fome, devem ter vontade de comer uma comida
caseira quente, bem feita e repleta de componentes, como era antes dessa maldita
guerra. Como fazer, fogão e gás não existe mais, só madeira, restos de
escombros. Como gostariam de sentar a mesa com seus familiares, mas devem perceber
que as cadeiras, as mesas e a comida não existem mais. Seus familiares ou
morreram, ou partiram tentando um novo abrigo e só lhes resta sozinhos comer o
que houver, se tiver algo, no chão do que restou de suas moradias ou de onde
estão abrigados. Devem ficar pensando, se existe tanta gente no mundo, onde a
comida sobra em suas mesas, qual a razão de eles não ter um pedaço de pão para
comer ou de toda essa gente sumir e os esquecer. A tristeza e o sentimento de
abandono devem invadir seus pensamentos.
Quando
olham para o que restou de suas moradias, quase que totalmente destruídas e lembram
suas camas e seus travesseiros, percebem que existe um vazio ou somente destroços.
O que lhes resta é o chão duro e sujo para dormir, assim mesmo se o medo, as
bombas e os tiros permitirem. Alguns pedaços de roupas servem apenas para se
cobrir e afastar um pouco o frio. Se dormirem, adormecem com a incerteza de se irão
acordar ou o que lhes reserva o dia de amanhã, provavelmente, mais perdas, mais
medo, sofrimento e dor.
Acredito
que devem olhar para o céu e as estrelas e pedir desesperadamente que lembre
que eles existem, que lembrem que todos são humanos e irmãos, independente do
local em que cada um vive. Devem rogar a todos deixarem de se manter em uma
omissão criminosa de não fazer nada para acabar com as guerras, como se nada de
ruim estivesse acontecendo, compactuando com a situação e vivendo egoisticamente
em mundos paralelos, ignorando a dor e o sofrimento dos outros. Devem pedir que
não as deixe sofrer tanto e por tanto tempo. Acredito que devem suplicar a
todos que não as esqueçam, que cada um assuma sua responsabilidade como ser
humano e que estão pedindo apenas para, ao menos, viver, só isso.
Essa
gente sofrida deve ficar realmente muito decepcionada ao perceber que os condutores
das nações consideradas ricas e maiores potências mundiais ficam fechadas às
suas consciências e responsabilidades com o lado humano do resto do mundo, procurando
resguardar somente e apenas os interesses, a segurança e o bem-estar de seus povos,
céleres na conquista de maior espaço de poder, totalmente alheios, surdos,
mudos e cegos ao sofrimento das nações e povos que vivem à mercê dos horrores
da guerra. Não é coerente, lógico e aceitável que se utilize tantos recursos
financeiros para aumentar o potencial bélico de algumas nações e não haja
recursos para proporcionar também o bem-estar dos povos menos favorecidos. Não
consigo entender e não encontro razões que possam justificar a manutenção, por
tanto tempo, de conflitos sangrentos que espalham a dor e o sofrimento em
algumas partes do mundo. O bem-estar, ou seja, os estados de conforto,
segurança, alegria, satisfação, felicidade, saúde e outros que indiquem
aspectos positivos da vida em geral, deveria ser o ambiente perene de todos os
povos no mundo e não somente os de algumas nações mais favorecidas.
Encerro
com a certeza que, se essa gente esquecida no sofrimento e dor pudesse, daria
um grito desesperado de socorro ao mundo, só não tenho certeza que seriam ouvidos
ou levados em consideração. A grande maioria das nações e das pessoas no mundo inteiro,
pelas mais diferentes razões, parece surda para os gritos do desespero e da dor,
cegas para enxergar as atrocidades cometidas e mudas para externar sua repulsa
às guerras, permanecendo irresponsavelmente omissas e acomodadas em uma zona de
conforto onde as suas consciências e suas responsabilidades não tem espaço.
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