Quando acontecem tragédias como as dos presídios no
Amazonas e em Roraima parece que as pessoas só agora tomaram conhecimento dessa
situação crítica em que vivem os presos em nosso País. Não é verdade, vivemos na
hipocrisia do desconhecimento disfarçado e do “faz de contas”, pois todos os
dias somos informados pelos mais diversos meios de comunicação sobre as
condições precárias dessas cadeias e penitenciárias existentes em nosso país, a
superlotação existente em todas e as condições degradantes a que os presos,
homens e mulheres, são submetidos.
É bom salientar que as condições que levam a esses
tipos de acontecimentos trágicos, tristes, que envergonham a todos no País, não
se tratam de algo novo, pois essas condições precárias e degradantes das
cadeias e penitenciárias nunca foram tratadas com a prioridade de solução que
merecem em várias gestões. Nesse momento o que se percebe são demonstrações de
oportunismo e de hipocrisia como se houvesse novidade e desconhecimento dessa
situação. Essas tragédias são resultado da crescente deterioração da sociedade
brasileira influenciada de sobremaneira pelo comportamento condenável de alguns
que visam somente à manutenção de privilégios e poder, semeando a discórdia, a
mentira e o desrespeito à ordem pública, em detrimento do bem comum.
É impossível aceitar que um cidadão, mesmo que tenha cometido um delito, tanto o que responde ao processo ou como o condenado, não seja tratado com dignidade e respeito, principalmente devido às particularidades específicas de cada processo, pela demora dos julgamentos e pela variedade de tipos de transgressões ou de gravidade dos atos cometidos. Muito pior ainda é aceitar que a sociedade que coloca esses indivíduos, homens e mulheres, nesses locais, admita tranquilamente que saiam da mesma forma ou muito piores que entraram. Explicações para que isso aconteça existem muitas, pois se trata de um problema de solução difícil, demorada, complexa e que depende praticamente de mudanças de visão e comportamento em diversas áreas de atuações em território nacional, envolvendo todos em função de gestão e toda a população brasileira.
Nessas horas se discute muito os erros cometidos, a
identificação de causas e culpados e se esquece da falta de adoção de políticas
públicas, pelas mais diversas razões, que efetivamente cumpram fielmente a Lei
de Execução Penal e seus dois eixos: punir e ressocializar. Recuperação,
ressocialização, readaptação, reeducação social, reabilitação de modo geral são
sinônimos, e, em outras palavras, significam reconduzir o preso à sua utilidade
para si mesmo, à sua família e à sociedade. Acredito que sejam obrigação e
responsabilidade do Estado priorizar isso nesse momento trágico, mas de nada
adiantará construir cadeias e presídios, enquanto as distorções existentes na
origem da formação desses indivíduos não sejam identificadas, analisadas
criteriosamente e que sejam adotadas as medidas saneadoras adequadas.
De acordo com a Lei de Execução Penal constituem
direitos dos presos:
- Alimentação suficiente e vestuário;
- Atribuição de trabalho e sua remuneração;
- Previdência social;
- Constituição de pecúlio;
- Proporcionalidade na distribuição do tempo para trabalho,
a descanso e a recreação;
- Exercício das atividades profissionais,
intelectuais, artísticas e desportivas anteriores, desde que compatíveis com a
execução da pena;
- Assistência material, à saúde, jurídica,
educacional, social e religiosa;
- Proteção contra qualquer forma de sensacionalismo;
- Entrevista pessoal e reservada com o advogado;
- Visita do conjugue, da companheira, de parentes e
amigos em dias determinados;
- Chamamento nominal;
- Igualdade de tratamento salvo quanto às exigências
da individualização da pena;
- Audiência especial com o diretor do
estabelecimento;
- Representação e petição a qualquer autoridade em
defesa de direito;
- Contato com o mundo exterior por meio de
correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação que não
comprometam a moral e os bons costumes.
Em outras palavras, a Lei de Execução Penal estabelece
que o preso, seja o que responde ao processo, quanto o que foi condenado, tem
todos os direitos que não foram lhe retirado pela pena ou pela lei. Significa
que o preso perde a sua liberdade, mas tem direito a um tratamento com
dignidade, além do direito de não sofrer violência física ou moral.
Pensando bem sobre o que foi descrito até agora da
Lei de Execução Penal, podemos concluir serenamente que o objetivo é elogiável,
humano e justo, mas foge totalmente da realidade que o Brasil vive hoje. Não
passa de uma bela intenção, mas desrespeitada por todos, mantendo um “faz de
contas”, como muitas outras coisas que acontecem nesse País. Ao leigo e sem
exageros, se a grande maioria da população brasileira livre tivesse garantido somente o que a Lei de Execução Penal garante
aos presos já estaria quase completamente feliz, evidenciando que a carência é
na aplicação das leis e não na inexistência das leis. A grande verdade é que
bastava que a Constituição Brasileira fosse aplicada na sua plenitude, para que
a grande maioria do povo brasileiro fosse beneficiada de forma justa,
igualitária e que a maioria das causas dos problemas atuais estaria solucionada.
A cadeia, a penitenciária, a punição e a
ressocialização são apenas partes e o fim de um processo, não o início. Se não
for dada a devida atenção ao início desse processo, eliminando as causas das
desigualdades, da inexistência ou exclusão de oportunidades iguais, o numero de
cadeias e penitenciárias tenderão sempre a crescer ou suas lotações permanecerão
subdimensionadas.
As ações emergenciais (presença das mais altas autoridades nas regiões conflagradas e empenho na definição de ações imediatas, a construção de mais presídios,
o uso da Força Nacional nos Estados onde a situação é mais crítica, o auxílio
financeiro e outras) devem ser elogiadas, pois não poderia ser diferente, o
momento é crítico. A lamentar somente a não divulgação no quadro geral o tempo de existência dessa situação e suas origens, assim como a utilização inadequada das consequências dessas ocorrências por alguns,
tentando passar a ideia da generalização do caos. Depois do aparente descaso ou
não priorização das ações necessárias, principalmente com os reflexos negativos
de uma crise econômica sem precedentes, com o crescimento da taxa de desemprego
no País, da insegurança das pessoas, da violência e da marginalidade, com a
aceitação do desrespeito às autoridades de todos os Poderes (Executivo, Legislativo
e Judiciário), das invasões e depredação de bens públicos e privados, queima de
ônibus, entre outras, essas tragédias em presídios só são parte dessa sequência
de situações que deixam a população brasileira atônita, perplexa, sem esperança
em dias melhores e sem saber em quem acreditar.
Enquanto a dignidade no tratamento do ser humano não
ocorrer com todos os indivíduos que nascem livres e puros nesse País, não
haverá solução para o problema atual e isso, com certeza, custará o tempo de uma
geração para resolver. Se olharmos as leis que existem em nosso Brasil veremos
que são mais do que suficientes para garantir a formação de indivíduos sadios, íntegros,
entretanto a falta de políticas públicas efetivas que garantam a aplicação das
mesmas, eliminando o “faz de conta”, os privilégios, as desigualdades e a falta
de uma educação de qualidade, impede a solução de muitos problemas críticos,
não só de presos, de cadeias e presídios, mas de toda a população brasileira. Só
a partir de um grande trabalho expansão de educação de qualidade de nossas
crianças, envolvendo maciçamente a sua totalidade e iniciado imediatamente, haverá
possibilidade de formar um povo educado e mais culto, quando então sobrarão
cadeias e penitenciárias. Mesmo sabendo que a solução não acontecerá de
imediato, acredito que só na formação de jovens com outra mentalidade, baseados
na educação de qualidade e na prática de verdadeiros valores, desde os primeiros
passos de suas vidas, poderá gerar um processo de transformação nesse país
oportunizando o surgimento de uma nova sociedade, com uma população menos
desigual e com seus gestores menos oportunistas, menos hipócritas e mais comprometidos
com o bem comum.
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