quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

TRAIÇÃO


Conversando com pessoas amigas sobre parte de um texto publicado fui envolvido por uma discussão sobre a traição. Fiquei até um pouco admirado e surpreso pelos posicionamentos diferentes e muitas vezes confusos, em momentos incoerentes, principalmente pelas justificativas apresentadas.

Por alguns instantes permaneci um pouco afastado do centro da discussão, só observando as opiniões e, só depois, procurei participar, primeiramente querendo saber o que cada um pensava sobre quais seriam as razões que levam as pessoas a trair.

Como na discussão predominava o foco em relacionamentos amorosos, namoro ou casamento, me posicionei colocando aos participantes que acreditava que a base de tudo era a confiança e a lealdade entre os envolvidos. As pessoas se olharam, apareceram algumas expressões faciais, um arregalar de olhos, algumas testas franzidas e sobrancelhas levantadas, um coçar de queixo e os posicionamentos reiniciaram mais conflitantes ainda.

Foi fácil perceber que não havia comunhão de pensamentos, pois o entendimento não era comum que o ato de trair está intimamente ligado à falta de lealdade e quebra de confiança. A fidelidade em uma relação, principalmente no casamento, está alicerçada na confiança mútua e na honestidade de posturas.

A maior parte dos posicionamentos versava sobre inúmeras justificativas da traição, sempre focadas na posição de quem traiu, e, em poucos momentos, alguém citou o sofrimento, a revolta e a angústia na pessoa que foi traída. Na grande maioria dos posicionamentos, acredito que pelo foco estar em relacionamentos amorosos, alguém aceitou ser viável o perdão, pois todos acreditam que a perda de confiança sempre permanecerá viva, como uma marca eterna, prejudicando de sobremaneira a continuidade de qualquer tipo de relacionamento de entrega total.

O que mais me impressionou foram os posicionamentos idênticos ou muito semelhantes entre homens e mulheres, longe do discurso machista ou feminista. O que evidenciaram foi falta de personalidade e de conteúdo válido, pois as maiores justificativas se concentraram em não serem felizes em seus relacionamentos pessoais ou por não se sentirem completamente satisfeitos em suas expectativas com quem se relacionam. Percebe-se claramente a falta de coragem à busca de uma melhor comunicação e para um diálogo aberto, franco, sobre problemas ou situações um pouco mais difíceis enfrentadas no dia-a-dia nos relacionamentos.

Outro ponto que mereceu minha atenção foi perceber a imaturidade de alguns confundindo sentimentos verdadeiros e tentando comparar, como se houvesse meios de comparação, uma relação estável, como o casamento, vida a dois, filhos e responsabilidades, com pontuais aventuras amorosas, onde houve a realização de fantasias e de desejos, próprios de alguns momentos de convivência em ambiente favorável, nada mais. Fiquei espantado quando alguém colocou que não considerava ser uma infidelidade, pois para ele era somente uma válvula de escape para momentos de dificuldades no seu relacionamento “estável”.

Um pouco estranho foi ninguém ter mencionado outras situações de traição fora do relacionamento amoroso, evidenciando que algumas pessoas esqueceram a abrangência da vida e existência de outras pessoas, fora de sua bolha. As relações sadias entre duas pessoas são importantes, entretanto é de suma importância não reconhecer tantos outros tipos de traições, principalmente pela gravidade e abrangência.  Em nosso círculo de amizades percebemos que vários “amigos” não merecem nossa confiança e se comportam escondidos na hipocrisia e na falsidade, traindo os conceitos básicos de civilidade e respeito mútuo.

Observando os momentos difíceis que estamos vivendo agora, percebemos que nossa confiança foi traída e todas as nossas expectativas em um comportamento honesto e justo para a condução de nosso País, foram frustradas. Como negar a traição que existe hoje em dia com a existência de atentados violentos, guerras, atrocidades e o sofrimento de pessoas, em várias partes do mundo, com as mais incríveis e inacreditáveis justificativas, situações que são aceitas ou não combatidas com o devido rigor, mesmo que todos os princípios eu regem a vida civilizada sejam negados e traídos. Humanismo, nem pensar, pois não conseguimos perceber a valorização do ser humano e a condição humana acima de tudo. Essa é maior traição existente atualmente, pois a luta cega e insana pelo poder e pela manutenção ou conquista de interesses próprios ou de nações privilegiadas, não permite que haja lugar à generosidade, à compaixão e com a preocupação em valorizar o homem, o bem-estar comum e a igualdade de direitos.




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