Observando o momento atual que vive o Brasil fico
estarrecido com a falta de reconhecimento e o tratamento dado aos direitos
legítimos e verdadeiros dos idosos. É lastimável ver que direitos adquiridos,
com muitos sacrifícios por quase toda uma vida, são totalmente desrespeitados.
Não consigo entender as razões que levam legisladores,
em todos os níveis, colocar fora de prioridades o pagamento de idosos, uma vez
que se trata de um benefício conquistado com o cumprimento de uma série de
requisitos estabelecidos. Muito menos entender como pode alguém defender que a
correção do valor das aposentadorias deve ser inferior a do salário mínimo,
pois ela significa a manutenção do poder aquisitivo e deveria ser igual a quem
está na ativa ou “desfrutando” a aposentadoria. Essa desvinculação foi, sem
sombra de dúvida, uma grande injustiça praticada pelos legisladores e inexplicavelmente
aceita pela sociedade. Estranha essa aceitação sem contestação alguma, já que para
alguns casos, a irredutibilidade é garantida.
Para refrescar um pouco a memória, o benefício previdenciário
da aposentadoria tem o objetivo de garantir ao segurado sua manutenção e de sua
família em caso de idade avançada do mesmo. Não é isso que se constata no
Brasil, pois o que ocorre é exatamente o contrário.
Muita gente faz questão de ignorar a existência da
Política Nacional do Idoso e, principalmente, o Estatuto do Idoso, onde são
estabelecidos os direitos dos idosos e são previstas punições a quem os violarem,
exatamente para dar aos idosos uma maior qualidade de vida. Não vejo ninguém
bradar sobre o desrespeito existente e a falta de consideração com quem passou
a maior parte da vida procurando conquistar e garantir o direito de passar os
últimos dias de suas vidas em uma situação, ao menos, segura e tranquila.
A maior injustiça, que chega a beirar a insensatez,
é atrasar o pagamento de idosos. O envelhecimento se desenvolve em cada idoso com
grandes variações influenciadas pela saúde, nível de participação na sociedade,
nível de independência e dos diferentes contextos. Existe na atualidade um
ambiente com a falsa sensação de que o idoso já viveu o suficiente, que
desfruta de excelente qualidade de vida, que há uma redução gradativa de suas
necessidades e por essas razões deixa de ser prioridade à sociedade. Quem pensa
assim desconhece totalmente a realidade brasileira. Exatamente por essa razão,
muitas decisões são tomadas por quem participa de uma minoria privilegiada da
sociedade que não conhece o Brasil real, a pobreza, a falta de saúde e a insegurança
em relação ao amanhã. O maior desafio que penso existir é conseguir entender
como essas pessoas julgam e decidem questões que envolvem a grande maioria da
população e encontrem argumentos válidos para defender que um trabalhador possa
viver dignamente com o valor de um Salário Mínimo. Ao colocarmos o idoso na
questão, como pode ser aceito que ele possa viver com a qualidade de vida, prometida
e conquistada, com menos de um Salário Mínimo, com seu poder aquisitivo sendo
reduzido ano após ano e ainda ter de suportar atrasos de pagamento por não ser
uma prioridade.
Fica muito difícil entender como alguns fazem
questão de “esquecer” que os idosos tendem a apresentar capacidades
decrescentes, em um processo de crescente vulnerabilidade, de fragilidade, de declínio
funcional com o comprometimento das mudanças físicas e emocionais, que acabam
resultando no comprometimento da qualidade de vida. É só observar os idosos que
nos cercam e veremos manchas na pele, rugas, cabelos brancos, deficiências visuais e
auditivas e outras perdas mais.
Na dificuldade atual da vida brasileira, com o
índice de desemprego altíssimo, com alto nível de pobreza, quantos idosos
sustentam famílias ou colaboram absorvendo parte substancial dos custos da família
na vida normal. Longe da qualidade de vida prometida e conquistada ainda tem que
conviver com a redução do poder aquisitivo de seus benefícios e, agora, não
tendo prioridade no pagamento e vendo a sociedade ir se acostumando como sendo
uma coisa normal. Não é possível aceitar isso, é como uma mentira repetida
tantas vezes que acaba sendo aceita como verdade.
Os jovens de hoje não podem e não devem esquecer
que serão os idosos de amanhã. Se hoje aceitam a consolidação dessa injustiça
desumana, amanhã não poderão reclamar de nada, pois estão semeando agora o que
irão colher no futuro.
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