sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Diferenças inaceitáveis



Em um raro momento de paz e tranquilidade, estava absorto pensando na vida quando avistei ao longe o sol procurando um leito para pousar seus raios e, a medida que o tempo foi passando, foi colorindo de dourada a paisagem que se descortinava a sua frente. Seus raios pincelavam os telhados que foram deixando de ter cor das telhas e das coberturas e passavam a brilhar. É o crepúsculo, o entardecer, a rendição consentida que o sol se submete ao próprio sacrifício e desaparece aos poucos no horizonte. Entende como sendo a sua hora de recolher e permitir que outras luzem iluminem a cidade. Um pouco de melancolia invade meus pensamentos. Não sei se é o efeito dessa visão maravilhosa, da projeção dos meus pensamentos ou, simplesmente, cansaço.

 

Nas ruas a quantidade das pessoas vão diminuindo, seguindo em passos lentos de volta a seus lares, exatamente o contrário do início da manhã, e a cidade começa a ficar vazia, dando lugar a espaços cada vez maiores, deixando de existir como cenário de todas as atividades do dia-a-dia. Os carros rodam cada vez em menor quantidade e os ruídos começam a diminuir, iniciando um período de longo silêncio.

 

Para embelezar a noite surge no horizonte a lua, riscando o mar e pintando de prata as coberturas e os telhados das casas. Realmente, fonte inspiradora para os românticos e para os namorados, mas fundamental para momentos de mergulho pessoal. Sua presença, a medida que cresce em nossa direção, ofusca um pouco, mas por pouco tempo, o brilho das estrelas no céu. Parece que vem para mostrar que a luz é parte fundamental da existência e que devemos procurar entender que temos nossa própria luz em nossas vidas. Basta olhar as estrelas e veremos que cada uma tem o seu brilho próprio, maiores ou menores, mas todas com seu brilho. A noite enseja essa oportunidade de sonharmos com um mundo melhor, de reencontro com o nosso próprio eu, de forma a tentarmos entender o que estamos fazendo aqui e que energia de luz podemos gerar.

 

Os primeiros habitantes da noite me trazem à realidade. São pessoas esquecidas e menos favorecidas que remexem lixos a procura de comida e, ao mesmo tempo, a escolha de um lugar para dormir. A procura por jornais e outros objetos que possam servir de cama ou de cobertor para o frio é frenética e incessante. Em um olhar mais crítico percebo que alguns encontram nas drogas e nas bebidas alcoólicas o amparo para seus sofrimentos. Rezo para que não faça frio ou chova, para que o sofrimento não seja maior ainda. Sinto pena e procuro entender as razões dessas diferenças existentes entre as pessoas nessa vida. Uns com muito, sem valorizar o que tem, outros, sem nada, valorizando um resto de comida em uma lixeira ou um jornal para se cobrir. Uma tristeza invade meus pensamentos e percebo minha incompetência e limitação para evitar que isso aconteça.

 

Logo a seguir, percebo gente bem vestida e feliz partindo ou voltando de encontros, festas, bares  e restaurantes ou de apresentações artísticas. Aparentemente não lhes fata nada para viverem e serem felizes. Comparo com a situação dos desamparados, mais uma vez a tristeza invade meu coração. O único ponto em comum é o consumo de drogas e bebidas alcoólicas,  o resto, são só diferenças. Volta, de forma perturbadora, a consciência de que fazemos muito pouco para eliminar essas diferenças inaceitáveis.

 

Ao horizonte, como uma flor desabrochando, a escuridão começa a perder espaço e a cidade de braços abertos, como um sorriso de criança, aguarda o inicio de um novo dia. É sinal que a noite vai perdendo seu encanto e dando adeus com surgimento dos primeiros raios de sol anunciando o amanhecer de um novo dia e mostrando a volta à realidade e criando novos espaços para a realização de sonhos. Fico imaginando as diferenças entre o dia e a noite. O dia, com sua luz, o calor do sol, inúmeras oportunidades de lazer e ao mesmo tempo o movimento frenético das pessoas, cada um buscando de alguma forma, a sua realização e o aproveitamento das oportunidades. A expressão comum define bem, a cada novo dia, um lindo dia. A noite, a escuridão comprometida pelo brilho da lua e das estrelas, oportunidade ímpar ao lazer, ao recolhimento e ao descanso e, ao mesmo tempo, oportunizando momentos íntimos de análise de nossas atitudes. Também conforme a expressão comum define bem, a cada nova noite, uma linda noite.

 

Tudo bem, tudo bem colocado, cada um curte o dia e a noite de alguma forma, mas não podemos aceitar como normal, esquecendo as diferentes formas com que as pessoas aproveitam o dia e a noite. Pelo lado romântico e poético, uma maravilha, mas pelo lado real, alguns continuam sofrendo muito, passando fome, frio, desabrigados, alguns entregues às drogas e esquecidos pela grande maioria. Situação desumana, inaceitável e que deve ter atenção saneadora e prioritária de todos. Temos todos de fazer, o máximo do possível, a nossa parte para acabar com as diferenças existentes, não esquecendo nunca que somos todos frutos de uma mesma origem.

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