Em um raro momento de paz e tranquilidade, estava absorto
pensando na vida quando avistei ao longe o sol procurando um leito para pousar
seus raios e, a medida que o tempo foi passando, foi colorindo de dourada a
paisagem que se descortinava a sua frente. Seus raios pincelavam os telhados
que foram deixando de ter cor das telhas e das coberturas e passavam a brilhar.
É o crepúsculo, o entardecer, a rendição consentida que o sol se submete ao próprio
sacrifício e desaparece aos poucos no horizonte. Entende como sendo a sua hora de recolher e permitir que outras
luzem iluminem a cidade. Um pouco de melancolia invade meus pensamentos. Não
sei se é o efeito dessa visão maravilhosa, da projeção dos meus pensamentos ou, simplesmente, cansaço.
Nas ruas a
quantidade das pessoas vão diminuindo, seguindo em passos lentos de volta a
seus lares, exatamente o contrário do início da manhã, e a cidade começa a ficar
vazia, dando lugar a espaços cada vez maiores, deixando de existir como cenário
de todas as atividades do dia-a-dia. Os carros rodam cada vez em menor
quantidade e os ruídos começam a diminuir, iniciando um período de longo silêncio.
Para embelezar
a noite surge no horizonte a lua, riscando o mar e pintando de prata as coberturas e os telhados das casas.
Realmente, fonte inspiradora para os românticos e para os namorados, mas fundamental para momentos de mergulho pessoal. Sua presença, a
medida que cresce em nossa direção, ofusca um pouco, mas por pouco tempo, o
brilho das estrelas no céu. Parece que vem para mostrar que a luz é parte
fundamental da existência e que devemos procurar entender que temos nossa própria luz em
nossas vidas. Basta olhar as estrelas e veremos que cada uma tem o seu brilho
próprio, maiores ou menores, mas todas com seu brilho. A noite enseja essa oportunidade de sonharmos com um mundo melhor, de reencontro
com o nosso próprio eu, de forma a tentarmos entender o que estamos fazendo
aqui e que energia de luz podemos gerar.
Os primeiros
habitantes da noite me trazem à realidade. São pessoas esquecidas e menos
favorecidas que remexem lixos a procura de comida e, ao mesmo tempo, a escolha
de um lugar para dormir. A procura por jornais e outros objetos que possam
servir de cama ou de cobertor para o frio é frenética e incessante. Em um olhar
mais crítico percebo que alguns encontram nas drogas e nas bebidas alcoólicas o
amparo para seus sofrimentos. Rezo para que não faça frio ou chova, para que o
sofrimento não seja maior ainda. Sinto pena e procuro entender as razões dessas
diferenças existentes entre as pessoas nessa vida. Uns com muito, sem valorizar
o que tem, outros, sem nada, valorizando um resto de comida em uma lixeira ou
um jornal para se cobrir. Uma tristeza invade meus pensamentos e percebo minha
incompetência e limitação para evitar que isso aconteça.
Logo a seguir,
percebo gente bem vestida e feliz partindo ou voltando de encontros, festas,
bares e restaurantes ou de apresentações
artísticas. Aparentemente não lhes fata nada para viverem e serem felizes. Comparo
com a situação dos desamparados, mais uma vez a tristeza invade meu coração. O
único ponto em comum é o consumo de drogas e bebidas alcoólicas, o resto, são só diferenças. Volta, de forma
perturbadora, a consciência de que fazemos muito pouco para eliminar essas
diferenças inaceitáveis.
Ao horizonte, como uma flor desabrochando, a escuridão começa a perder espaço e a cidade de braços abertos, como um sorriso de criança, aguarda o inicio de um novo dia. É sinal que a noite vai perdendo
seu encanto e dando adeus com surgimento dos primeiros raios de sol anunciando o amanhecer
de um novo dia e mostrando a volta à realidade e criando novos espaços para a
realização de sonhos. Fico imaginando as diferenças entre o dia e a noite. O
dia, com sua luz, o calor do sol, inúmeras oportunidades de lazer e ao mesmo
tempo o movimento frenético das pessoas, cada um buscando de alguma forma, a
sua realização e o aproveitamento das oportunidades. A expressão comum define
bem, a cada novo dia, um lindo dia. A noite, a escuridão comprometida pelo brilho
da lua e das estrelas, oportunidade ímpar ao lazer, ao recolhimento e ao descanso
e, ao mesmo tempo, oportunizando momentos íntimos de análise de nossas atitudes.
Também conforme a expressão comum define bem, a cada nova noite, uma linda
noite.
Tudo bem, tudo
bem colocado, cada um curte o dia e a noite de alguma forma, mas não podemos aceitar como normal, esquecendo as diferentes
formas com que as pessoas aproveitam o dia e a noite. Pelo lado romântico e
poético, uma maravilha, mas pelo lado real, alguns continuam sofrendo muito, passando
fome, frio, desabrigados, alguns entregues às drogas e esquecidos pela grande
maioria. Situação desumana, inaceitável e que deve ter atenção saneadora e prioritária
de todos. Temos todos de fazer, o máximo do possível, a nossa parte para acabar
com as diferenças existentes, não esquecendo nunca que somos todos frutos de
uma mesma origem.
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