Como a
gota d´água que acompanha o curso do riacho na queda na cascata, segue o homem
a acompanhar a trajetória da multidão. Inerte e fechado para as manifestações
de sua própria natureza e aceitando passivamente aos pensamentos de uma grande
maioria, segue os seus passos, muitas vezes sem pensar nas razões que o levam
aquele caminho. Segue, simplesmente segue, pois todos ao seu redor aparentemente
estão seguindo. Não consegue perceber outros pensamentos e, muitas vezes, não
consegue enxergar que existem outros caminhos a trilhar e que poderão lhe
trazer mais e melhores retornos. Vendo a multidão que o cerca seguir, segue também
adiante, terrivelmente preso ao pensamento e aos desejos de outros, como uma
enorme corrente unida por elos de metal, batendo uns contra os outros, mas
permanecendo sempre juntos e sendo carregada sem resistências de um lado a
outro. A sua consciência adormecida não permite que pense sobre a validade
desse seu comportamento, acompanhando passos que nunca pensou dar e em direção
a um lugar que não sabe qual seja.
Um dia os
elos da corrente se desgastam e se soltam, assim como na vida. Ao longo da
trajetória uns morrem e vão ficando pelo caminho, outros nascem e engrossam a
multidão. O término dessa trajetória, por não ter um objetivo consciente, jamais
será alcançado, pois nesse caminho as pessoas não tem valor e simplesmente são
números que reduzem ou crescem. Indiferentes a isso o homem acompanha a
multidão e não encontra forças suficientes e nem mesmo vontade de abandonar
esse caminho.
Com
certeza, poucos são os que defendem um comportamento humano e consciente. Poucos,
mas corajosos, são os que lutam pela sobrevivência de valores, exigindo que
sejam praticados, não somente citados, pois entendem que para muitos é mais
confortável ignorar a consciência e seguir com a maioria na multidão. Esses
pensam que são felizes, pois evitam conflitos com o choque de consciências,
mesmo entendo como não corretas certas atitudes. Tola e falsa felicidade, não
mais que isso, pois nada melhor que o tempo para colocar cada verdade no seu
devido lugar.
O
comportamento da multidão sempre tentará afastar ou esmagar aqueles que se
oponham a ela e dessa forma vão formando e mantendo um todo quase imbatível, tornando
a corrente cada vez mais forte. Não se pode deixar de considerar que onde
existe um grupo, existe uma liderança. Quanto maior for à falta de consciência
das responsabilidades, maior será o malefício ao conjunto e a todos os demais,
mesmo que não estejam atrelados a corrente. Uma vez esquecida à consciência
tudo passa a ser aceito como certo e normal e o homem segue em direção à sua
vida primitiva. Quando os argumentos deixam de ser prioridade, a violência
passa a ser encarada como normal e solução para qualquer situação de confronto
de ideias ou de interesses. A convivência pacifica e harmoniosa, da igualdade de
direitos e dos diferentes modos de pensar e viver, dá lugar às injustiças e ao desrespeito
de valores importantes para saciar a sede de poucos mais fortes, satisfazendo
suas ambições pessoais na conquista de poder e dinheiro. Valores servem somente
para florear discursos e esconder as reais intenções, pois apenas servirão de
alicerce para disfarçar e tentar justificar as ações.
Nessa
realidade, o homem segue a multidão, pensando estar construindo o seu mundo, um
lugar melhor e seu, mas na verdade está sendo usado e colaborando para destruir
a si próprio e os outros. O homem esquece que o crescimento na vida é o
resultado de um encadeamento interminável, independentemente das pessoas e do
tempo e que vivemos mais em função do amanhã do que para o dia de hoje. O
pensamento do homem foi criado para sempre estar um pouco além do ponto em que
se encontra no momento. Como a vida segue e o homem segue caminhos, sempre terá
de escolher entre duas opções. Uma, ficar no falso conforto do conformismo com
tudo que acontece ao seu redor e só seguir a multidão, ou outro, mais difícil,
mas com maior retorno, abraçar a formação de um grupo cada vez maior e contribuir
na construção de um mundo cada vez melhor e mais justo.
Muito
triste é perceber que muitos convivem sem se abalar, vivendo totalmente imunes
ao sofrimento de poucos que morrem em absurdas guerras, de fome, de sede, de
frio, de doenças e que são esquecidos à sua própria sorte. Desde que não sejam
atingidos diretamente, conseguem manter, de forma desumana e irresponsável, sua
total omissão e imobilismo. Se alguém acreditar que não pode fazer nada, aqui e
agora, acredito que basta abrir os olhos, olhar e enxergar a verdade de nossas
ruas, de nossos esquecidos e passar a agir de forma a minimizar e acabar com
essas diferenças inaceitáveis e o sofrimento dessas pessoas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário