domingo, 14 de agosto de 2016

O homem na multidão


 

Como a gota d´água que acompanha o curso do riacho na queda na cascata, segue o homem a acompanhar a trajetória da multidão. Inerte e fechado para as manifestações de sua própria natureza e aceitando passivamente aos pensamentos de uma grande maioria, segue os seus passos, muitas vezes sem pensar nas razões que o levam aquele caminho. Segue, simplesmente segue, pois todos ao seu redor aparentemente estão seguindo. Não consegue perceber outros pensamentos e, muitas vezes, não consegue enxergar que existem outros caminhos a trilhar e que poderão lhe trazer mais e melhores retornos. Vendo a multidão que o cerca seguir, segue também adiante, terrivelmente preso ao pensamento e aos desejos de outros, como uma enorme corrente unida por elos de metal, batendo uns contra os outros, mas permanecendo sempre juntos e sendo carregada sem resistências de um lado a outro. A sua consciência adormecida não permite que pense sobre a validade desse seu comportamento, acompanhando passos que nunca pensou dar e em direção a um lugar que não sabe qual seja. 

 

Um dia os elos da corrente se desgastam e se soltam, assim como na vida. Ao longo da trajetória uns morrem e vão ficando pelo caminho, outros nascem e engrossam a multidão. O término dessa trajetória, por não ter um objetivo consciente, jamais será alcançado, pois nesse caminho as pessoas não tem valor e simplesmente são números que reduzem ou crescem. Indiferentes a isso o homem acompanha a multidão e não encontra forças suficientes e nem mesmo vontade de abandonar esse caminho.

 

Com certeza, poucos são os que defendem um comportamento humano e consciente. Poucos, mas corajosos, são os que lutam pela sobrevivência de valores, exigindo que sejam praticados, não somente citados, pois entendem que para muitos é mais confortável ignorar a consciência e seguir com a maioria na multidão. Esses pensam que são felizes, pois evitam conflitos com o choque de consciências, mesmo entendo como não corretas certas atitudes. Tola e falsa felicidade, não mais que isso, pois nada melhor que o tempo para colocar cada verdade no seu devido lugar.

 

O comportamento da multidão sempre tentará afastar ou esmagar aqueles que se oponham a ela e dessa forma vão formando e mantendo um todo quase imbatível, tornando a corrente cada vez mais forte. Não se pode deixar de considerar que onde existe um grupo, existe uma liderança. Quanto maior for à falta de consciência das responsabilidades, maior será o malefício ao conjunto e a todos os demais, mesmo que não estejam atrelados a corrente. Uma vez esquecida à consciência tudo passa a ser aceito como certo e normal e o homem segue em direção à sua vida primitiva. Quando os argumentos deixam de ser prioridade, a violência passa a ser encarada como normal e solução para qualquer situação de confronto de ideias ou de interesses. A convivência pacifica e harmoniosa, da igualdade de direitos e dos diferentes modos de pensar e viver, dá lugar às injustiças e ao desrespeito de valores importantes para saciar a sede de poucos mais fortes, satisfazendo suas ambições pessoais na conquista de poder e dinheiro. Valores servem somente para florear discursos e esconder as reais intenções, pois apenas servirão de alicerce para disfarçar e tentar justificar as ações.

 

Nessa realidade, o homem segue a multidão, pensando estar construindo o seu mundo, um lugar melhor e seu, mas na verdade está sendo usado e colaborando para destruir a si próprio e os outros. O homem esquece que o crescimento na vida é o resultado de um encadeamento interminável, independentemente das pessoas e do tempo e que vivemos mais em função do amanhã do que para o dia de hoje. O pensamento do homem foi criado para sempre estar um pouco além do ponto em que se encontra no momento. Como a vida segue e o homem segue caminhos, sempre terá de escolher entre duas opções. Uma, ficar no falso conforto do conformismo com tudo que acontece ao seu redor e só seguir a multidão, ou outro, mais difícil, mas com maior retorno, abraçar a formação de um grupo cada vez maior e contribuir na construção de um mundo cada vez melhor e mais justo.

 

Muito triste é perceber que muitos convivem sem se abalar, vivendo totalmente imunes ao sofrimento de poucos que morrem em absurdas guerras, de fome, de sede, de frio, de doenças e que são esquecidos à sua própria sorte. Desde que não sejam atingidos diretamente, conseguem manter, de forma desumana e irresponsável, sua total omissão e imobilismo. Se alguém acreditar que não pode fazer nada, aqui e agora, acredito que basta abrir os olhos, olhar e enxergar a verdade de nossas ruas, de nossos esquecidos e passar a agir de forma a minimizar e acabar com essas diferenças inaceitáveis e o sofrimento dessas pessoas.

 

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