Na vida normal conversamos com várias pessoas e
mesmo sem perceber de forma mais consciente, acabamos participando de relatos
de dramas pessoais, onde nos sentimos incapazes de prestar alguma ajuda. Existem
casos que nem uma opinião poderá trazer algum conforto ou ajuda no
enfrentamento das dificuldades e o nosso silêncio é a melhor forma de
solidariedade.
Na grande maioria das vezes tentamos entender as
razões do que vivenciamos e, por maiores que sejam nossos esforços, não
encontramos explicações que justifiquem o sofrimento dessas pessoas. Destino,
não é possível crer, pois existe o livre arbítrio, entretanto se realmente
existe, a felicidade deveria ser uma escolha, não uma conquista, assim como o sofrimento
não foi uma escolha.
A partir das considerações acima e procurando
utilizar essas ponderações no lado prático e real da vida atual, projetando-as à
vida de uma pessoa comum, qualquer uma daquelas que não faz parte do pequeno
grupo de privilegiados e também do grande grupo de menos favorecidos,
percebemos que, se não houver grandes mudanças no modo de pensar e de se comportar
da sociedade e de seus governantes, as dificuldades enfrentadas estão levando a
grande maioria, com maior ou menor intensidade, a um sofrimento silencioso,
lento e cruel.
Uma pessoa empregada atualmente vive com constantes
e crescentes preocupações, com a manutenção de seu emprego e do poder aquisitivo
de seu salário e, ao mesmo tempo, como dividir seu salário de acordo com as
prioridades de suas despesas. Com certeza essa análise coerente levará a uma
crescente privação em sua vida, mesmo sozinho ou quando responsável por outros,
pois não existe a equivalência entre sua receita e as despesas. Mesmo que
queiram provar o contrário, querendo “tapar o sol com a peneira”, com a venda
de ilusões abstratas, sua qualidade de vida decrescerá de acordo com o crescimento
dessa disparidade, carregando consigo todos os demais pelos quais é
responsável. Esse sentimento de perda, como se diz popularmente, vai “matando”
a pessoa, de forma silenciosa, consciente e cruel, acreditando ser incompetente
para alterar essa trajetória e pela visão da insegurança que paira sobre o seu
futuro. Infelizmente não consegue enxergar que a solução não depende só de sua
competência, de seu trabalho e de seus esforços, mas sim de todo um conjunto de
coisas que se mantém incólume, de forma injusta e cruel.
Imagine uma pessoa apta e que tenha ficado desempregada,
procurando dia e noite uma local para conseguir trabalhar e ter um salário,
recebendo sempre um não, retornando para sua casa. Quanto maior for sua
responsabilidade, quanto maior forem as suas carências, maiores serão as
dificuldades e muito maior será seu sofrimento. As suas despesas essenciais e
indispensáveis, por maior que tenha sido sua diminuição continuam, bem menores,
mas continuam e sem nenhuma condição de aquisição, a não ser contando com a
ajuda de familiares e amigos, que nessas horas difíceis também somem. Não
existe possibilidade de pagamento de suas dívidas e só crescem de forma exponencial,
impessoal e desumana, tornando-se impagáveis. As humilhações são uma constante
em sua vida, as queixas cada vez maiores e o sentimento de abandono, maior
ainda. Por mais bagagem que possua de sua vida não consegue ficar imune a um
sofrimento avassalador e que, aos poucos, dia-a-dia, vai retirando um pouco de
suas forças e de sua vida de forma inexorável e cruel.
Há espaço para comentar sobre aqueles que tentam,
sem sucesso, ingressar no mercado do trabalho, entretanto nessa condição fazem
parte das dificuldades enfrentadas por um dos dois grupos citados acima.
Projetando isso para todas as pessoas, podemos chegar à conclusão que se nada mudar na forma de entendermos o que é ser uma sociedade, não há saída, pois todos, sem exceção e das mais diversas formas, estarão expostos às perdas e a um sofrimento silencioso, lento e cruel, mesmo onde e como possam estar agora. A perda da consciência da responsabilidade que cada um tem com os outros, a omissão intolerável perante as injustiças, o descompromisso com o bem comum e a falta de solidariedade com os mais necessitados, são os sintomas da desagregação e negação da raça humana. É preciso que se pare um pouco e que se analise com profundidade a realidade, procurando entender melhor e se conscientizar da necessidade de buscarmos construir uma sociedade mais justa, mais humana, mais civilizada, mais solidária, mais igual, entendendo que a felicidade e as oportunidades devem estar ao alcance de todos e que as verdadeiras soluções dependem da união de esforços, agora, sem perder mais tempo e quando ainda temos a possibilidade de gerar grandes mudanças de comportamento de nossa sociedade. Basta acreditar que é possível criar um futuro melhor, um mundo onde todos serão iguais, onde não haja espaço para discriminações por cor, credo, raça, opção sexual, posição social, condição financeira, poder e nacionalidade.
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